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Depoimentos

Há um tempo de estudar as ideias e há um tempo de ser habitado por elas. Na Faculdade Unida de Vitória creio ter chegado no momento em que as duas dimensões finalmente se aproximaram como nunca antes na minha história pessoal, e por isso o que aqui deixo como narrativa é uma “escrevivência”.


Aparentemente vim de longe. Vim da filosofia, de Nietzsche e da estética, no mestrado em Filosofia, de anos ensinando o pensamento como quem ensina a nadar sem entrar na água. Lembrando o pensador luso-brasileiro Agostinho da Silva, no Brasil era preciso saber boiar, não remar ou nadar; as condições contraditórias da cultura brasileira e lusófona demandavam um tipo de olhar para a realidade, um tipo de atenção, e de construção de si nessa realidade, que precisava se compor segundo o que se mostrava oportuno e viável nesse e naquele momento.

O Doutorado veio como esse momento oportuno de poder remar na direção que me interessou desde sempre, o viver pensar, mas que as ondas só se mostraram oportunas nesse tempo e nesse lugar. Ali, no contato com os professores, orientador e colegas discentes, pude finalmente dar nome a uma inquietação de longa data, aquela que sempre me instigou, se o filosofar era apenas pensar ideias ou se era, mais fundo, viver segundo elas.


No Programa de Pós-Graduação Profissional em Ciências das Religiões da Faculdade Unida de Vitória construí a percepção de que uma filosofia de vida não é só um ensino racional, mas sobretudo uma interação afetiva positiva. Meus colegas discentes foram muito importantes nessa dimensão, de modos variados; tive a experiência de que o acaso é muito generoso comigo, sem descuidar dos professores, que também foram acolhedores. Desde muito tempo essa realidade era o que me apetecia à alma, e só agora formulo em termos narrativos essa intuição inicial. Ambientes afetivos acolhedores são, por excelência, o lugar de um viver pensar.


Não escrevi apenas uma tese, nem fiz apenas uma Licenciatura em Ciências das Religiões concomitante ao doutorado. Tencionei aproximar o viver do pensar até que já não soubesse dizer onde um terminava e o outro começava. Minha escrita “labiríntica” sou eu, é o real do meu eu. E foi isso que me fez notar que os instantes de felicidade que vivenciei nesse período são fruto dessa feliz coincidência de mim comigo mesmo. E ao coincidir comigo mesmo é que surgiram os momentos dessa felicidade. Chamo a isso, na falta de palavra melhor, uma poesia, o pensamento que desce ao cotidiano e, desse cotidiano, sobe, transfigurado, ao pensamento. Essa é a ideia que Agostinho da Silva verbalizou através da noção de um “fazer-se poema” e, mais radical ainda, de “ser um poema”.


Agostinho da Silva foi um referencial teórico e de vida, indo além de um texto de tese, numa inspiração como intelectual e professor. Sua grande contribuição para o pensamento, que é mesmo um mistério, é saber como alguém consegue motivar tantos outros a se engajarem nesse fazer-se poesia. Ele não pede que se decore seus textos. Pede que descubramos os nossos textos-vidas, que são necessariamente um balanço, como as ondas do mar, contraditório, porque só um viver pleno é composto de contradição. A nós humanos, que nos exprimimos pela língua portuguesa, essa grande “mátria” que é a lusofonia, talvez seja essa a maior contribuição para o pensar universal, o pensar para além do necessário, do logicamente não contraditório. Pensamos justamente na contradição, e a felicidade, para mim, foi descoberta nesse balanço das ondas do mar.


Fico grato. E fico, sobretudo, mais inteiro.

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